Introdução
A noção de identidade é definitivamente uma questão do nosso tempo. Uma vez que provou-se destrutiva a busca racional pelo progresso - vide duas guerras mundiais -, toda a corrente filosófica moderna foi relativizada. Com o mundo vem o sujeito que, por mais frustrante que seja, não pode mais ser definido por uma ideia acabada. Sobrenome, partido político, religião, titulação acadêmica, tudo isso não representa mais o que define uma pessoa – mesmo essa última não é mais capaz de definir-se completamente. Talvez o caminho mais seguro seja pela não-definição, ou seja, pela tomada de consciência de que nossa mente é mutável, indefinível por certo; o problema surge da frustração racional que isso acarreta. Zelig, personagem-título da obra de Woody Allen, vive essa busca por identidade num mundo em que os referenciais que definem uma pessoa são ofuscados. Asombrado pelos medos e pela imposição da alteridade, transforma-se no Outro como meio de proteger a si mesmo. Stuart Hall, em dois textos extraídos de suas obras, pode nos fornecer um caminho mais tangível para os sentidos da identidade no mundo pós-moderno.
O sujeito despersonalizado
Zelig (1983), filme escrito, dirigido e estrelado pelo cineasta americano Woody Allen parece, ao menos ao público que possui alguma noção de sua filmografia, refletir sua personalidade. Allen é conhecido por retratar em suas obras sentimentos como melancolia, insegurança e inadequação social. Vencedor do Oscar de melhor direção por Annie Hall (1978) e maior indicado da história desse festival pela categoria roteiro original, grande parte de seus filmes acompanham a vida de um intelectual frustrado, geralmente ele mesmo, por devaneios filosóficos que quase sempre chegam a lugar nenhum, desencontros casuais, frustrações amorosas e, por último e não menos importante, cenas hilárias.
A partir de um roteiro ficcional e uma estética documental, "Zelig" inaugura o gênero “mockmentary”, que influencia mais tarde títulos como A Bruxa de Blair (1999) e Borat (2006). “O semiólogo italiano Umberto Eco chama isso de ‘verdade parabólica’: criar uma relação indireta com o real por meio de simbolismos, paródias, paráfrases etc” (FERREIRA, Wilson, 2011). Ambientado entre a década de 20 e 30, a trama remonta o passado de Leonard Zelig (Woody Allen), nova-iorquino de família judia que certamente passaria despercebido pela história não possuísse uma estranha habilidade: transformar-se literalmente no seu próximo.
Tanto psicologicamente (como alguém sério ou extrovertido), quanto fisicamente (negro, oriental, obeso), o apelidado “camaleão humano” é estudado por especialistas que inutilmente tentam resolver sua patologia por meio de medicamentos, operações equivocadas ou falsos diagnósticos – denunciando a ignorância dos bem entendidos. Acontece que, na sociedade de massa, mesmo o patológico, a aberração (que agora possui canção infantil, dança e até brinquedinho) tem seu lugar garantido nas prateleiras do consumo, o que torna o homem famoso e aceito na sociedade, mesmo que isso custe a autonomia de si.
A única personagem que vai a fundo nesse mistério é a psiquiatra Eudora Fletcher (Mia Farrow). Através da hipnose, ela descobre que, para Zelig, incorporar a identidade do outro é aparentemente mais seguro do que viver a sua própria. Por conta de uma criação familiar conturbada e da ausência de pertecimento nacional, essa seria uma tentativa do personagem de se sentir sempre aceito e amado por todos.
De forma a elucidar mais a fundo a questão da identidade, a contribuição do teórico social jamaicano-britânico Stuart Hall se faz presente, a fim de trilhar, num primeiro momento, as origens deste conceito em Identidade e Diferenças (2011) e, em seguida, por uma historicização do indivíduo na pós-modernidade em A identidade cultural na pós-modernidade (2013).

A genealogia da identidade
O teórico social e sociólogo jamaicano-britânico Stuart Hall (1932-2014) notabilizou-se pelos estudos de identidade nos anos 90 e 2000. Em Identidade e Diferenças (2011), ele procura resgatar a definição de identidade, afastando-se dos recorrentes equívocos que envolvem esse tema.
Segundo o desconstrutivismo, o conceito de identidade deve ser colocado “sob rasura”. Isso significa que “[...] eles não servem mais – não são mais ‘bons para pensar’ – em sua forma original, não reconstruída.” (Hall apud Hall, 1995, p.104). Devem, portanto, ser superados pela dialética a fim de constituírem-se como tal. Em outras palavras, a “rasura” tem a tarefa de lembrar que nenhuma definição é em si absoluta. Sobre o segundo ponto, há dois pilares que sugerem a ideia da irredutibilidade deste conceito: as noções de política e agência. Para Hall, a questão política relaciona-se com ideias de localização mais ou menos instáveis que englobam as chamadas “políticas de identidade”; já agência refere-se ao equivocado entendimento humanista que vê o sujeito como centro da historicidade.
Esclarecido isso, descortina-se uma perspectiva não definitiva do conceito. Esta realiza-se somente à medida do processo de différance. Para o idealista alemão Hegel, “o real é relacional”. Isto significa que o real só acontece pelo movimento decorrente do jogo dialético de oposições. Algo só é o que é à medida que nega ser outra coisa. Essa é a mecânica da différance, também colocada por ele como “efeito de fronteiras”.
Acima de tudo, e de forma diretamente contrária àquela pela qual elas são constantemente invocadas, as identidades são construídas por meio da diferença e não fora dela. Isso implica o reconhecimento radicalmente perturbador de que é apenas por meio da relação com o outro, da relação com aquilo que não é, com precisamente aquilo que falta [...] que o significado “positivo” de qualquer termo – e, assim, sua “identidade” – pode ser construído. (Derrida, 1981; Laclau, 1990; Butler, 1993 apud Hall, 2011, p.110).
Michel Foucault (1926-1984), filósofo e sociólogo francês, acredita que carecemos de uma “teoria da prática discursiva”, a fim de que a dinâmica entre discurso e relações humanas seja de uma vez por todas esclarecida. “Parece que é na tentativa de rearticular a relação entre sujeitos e práticas discursivas que a questão da identidade […] volta a aparecer.” (Hall, 2011, p. 105).
Em contraste com o ‘naturalismo’ dessa definição, a abordagem discursiva vê a identificação como uma construção, como um processo nunca completado – como algo sempre ‘em processo’. Ela não é, nunca, completamente determinada – no sentido que se pode, sempre, ‘ganhá-la’ ou ‘perdê-la’; no sentido que ela pode ser, sempre, sustentada ou abandonada. Embora tenha suas condições determinadas de existência, o que inclui os recursos materiais e simbólicos exigidos para sustentá-la, a identificação é, ao fim e ao cabo, condicional; ela está, ao fim e ao cabo, alojada na contingência. Uma vez assegurada, ela não anulará a diferença. A fusão total entre o ‘mesmo’ e o ‘outro’ que ela sugere é, na verdade, uma fantasia de incorporação […]. (HALL, 2011, p. 106)
A identidade, então, deve ser entendida como esse processo dialético. O psicanalista francês Jacques Lacan vislumbra esse acontecimento na infância: é a chamada “fase do espelho”. O “falso reconhecimento”, como também chamado, acontece quando a criança em formação se identifica pela figura que os outros (primeiramente, os pais) fazem dela.
Foucault, de forma mais radical, já não é capaz de enxergar qualquer dimensão do individual que, para ele, não seria mero herdeiro das relações de poder presentes na sociedade. À beira do niilismo, o sujeito para ele, é, em primeiro lugar, “[…] produzido “como um efeito” do discurso e no discurso, no interior de formações discursivas específicas, não tendo qualquer existência própria.” (Hall, 2011, p.119). O ponto de atrito entre Hall e Foucault acontece no que diz respeito ao corpo. Para o francês, este carece de qualquer estabilidade que sirva de base para o auto reconhecimento ou para a compreensão de outros homens – visto ser marcado exclusivamente pela história, responsável por sua destruição. Já em Hall, “[…] o corpo tem funcionado como o significante da condensação das subjetividades no indivíduo e essa função não pode ser descartada apenas porque, como Foucault tão bem mostra, ela não é verdadeira.” (Hall, 2011, p. 121).
Tendo Foucault ignorado a psicanálise como janela para os fenômenos que vieram por atingir o sujeito na modernidade tardia, Judith Butler, após sua morte e sob essa perspectiva, é quem assume tangencialmente seu legado. Reconhecendo as mecânicas de poder no campo social, Butler centraliza o sexo como padrão discursivo assimilado pelos sujeitos, em vias de tensionar identidade e sexualidade.
Esse texto aceita como ponto de partida a ideia de Foucault de que o poder regulatório produz os sujeitos que controla, que o poder não é simplesmente imposto externamente, mas que funciona como o meio regulatório e pelos sujeitos são formados. O retorno à psicanálise é orientado, pois, pela questão de como certas normas regulatórias formam um sujeito “sexuado”, sob condições que tornam impossível se distinguir entre a formação psíquica e a formação corporal. (Butler apud Hall, 2011, p.128).
O sujeito descentralizado
Uma vez esclarecida a noção mais complexa de identidade, A identidade cultural na pós-modernidade (2013) apresenta teorizações consideradas basilares para o que o autor chama “descentramento final do sujeito cartesiano” (Hall, 2013). René Descartes (1596-1650) é considerado o pai da pensamento moderno. Cogito ergo sum resume a capacidade de se pensar como característica inata e formadora da experiência humana. As palavras de Raymond Williams contextualizam esse espírito do tempo.
A emergência de noções de individualidade, no sentido moderno, pode ser relacionada ao colapso da ordem social, econômica e religiosa medieval. No movimento geral contra o feudalismo houve uma nova ênfase na existência pessoal do homem, acima e além de seu lugar e sua função numa rígida sociedade hierárquica. Houve uma ênfase, similar, no Protestantismo, na relação direta com Deus, em oposição a esta relação mediada pela Igreja. Mas foi só ao final do século XVIII que um novo modo de análise, na Lógica e na Matemática, postulou o indivíduo como entidade maior (cf. as “mônadas” de Leibniz), a partir da qual outras categorias (especialmente categorias coletivas) eram derivadas. O pensamento político do Iluminismo seguiu principalmente deste modelo. [...] (Williams apud Hall, 2013, p.23).
O descentramento do sujeito cartesiano que cristaliza-se na década de 1960 é fundamentado por cinco pilares. O primeiro vem da corrente de pensamento marxista que entende que "os homens fazem a história, mas apenas sob as condições que lhe são dadas” (Marx apud Hall, 2013, p. 34). Marx, com este argumento, descentra as concepções até então vigentes: 1) de que houvera uma essência natural ao homem; 2) de que tal essência seria atributo de cada “indivíduo singular”.
Sob a ótica da psicanálise, novamente Lacan é responsável pela teorização sobre o deslocamento do sujeito. A formação do eu no olhar do outro “[…] inicia a relação da criança com os sistemas simbólicos fora dela mesma e é, assim, o momento de sua entrada nos vários sistemas de representação simbólica – incluindo a língua, a cultura e a diferença sexual” (Hall, 2013, p.38). É nesse momento que a criança (ou o homem) identifica-se com essa imagem desejada fundada sob constructos simbólicos – primeiramente identificados com ideais paternais e, posteriormente, sociais. O que decorre desse processo é que, “[…] embora o sujeito esteja sempre partido ou dividido, ele vivencia sua própria identidade como se ela estivesse reunida e “resolvida”, ou unificada […]” (Hall, 2013, p.38).

O postulado seguinte é o de Ferdinand de Saussure (1857-1913), responsável pela autonomia disciplinar da linguística, ciência da linguagem. Recordando que a língua nos preexiste e caracteriza-se por ser um sistema social, Saussure alerta para sua importância. De fato, “nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura” (Hall, 2013, p. 40).
Para Jacques Derrida e outros estruturalistas, o assunto ganha ainda maior complexidade à medida que, nas palavras de Hall, “[...] [estes] argumentam é que, apesar de de seus melhores esforços, o/a falante individual não pode, nunca, fixar o significado de uma forma final, incluindo o significado de sua identidade” (Hall, 2013, p.41). A estrutura da lingua não dá conta da constante “instabilidade do significado” (Hall), visto que este último é, no fim das contas, insondável. “As palavras são ‘multimoduladas’. Elas sempre carregam ecos de outros significados que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços para cerrar o significado” (Hall, 2013, p. 41).
A quarta afirmação pertence a Foucault. Tendo desenvolvido uma espécie de “genealogia do sujeito moderno” (Hall), Foucault, como já visto, acentua o caráter de poder imbricado nas relações sociais – cabendo, portanto, inexistente autonomia ao indivíduo, unicamente sustentado pelas “[…] instituições que se desenvolveram ao longo do séc. XIX e que ‘policiam’ e disciplinam as populações modernas – oficinas, quartéis, escolas, prisões, hospitais, clínicas e assim por diante” (Hall, 2013, p. 42). Para Dreyfus e Rabinow, “seu objetivo básico consiste em produzir ‘um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil" (Dreyfus e Rabinow apud Hall, 2013, p.42).
O último e não menos importante acontecimento é o do feminismo e de movimentos contraculturais sessentistas. Este eixo foi o principal responsável pelo descentramento do sujeito cartesiano como arquétipo de força, inteligência e capacidade. “Aquilo que começou como um movimento dirigido à contestação da posição social das mulheres expandiu-se para incluir a formação das identidades sexuais e de gênero” (Hall, 2013, p.45).
Conclusão
Zelig nos apresenta três pontos: o dilema da inconsistência da identidade humana, em primeiro lugar; o auge dessa incompreensão com o advento das despersonalizadoras sociedades de massa; e a dialética do sujeito - conceito que solidifica-se na pos-modernidade e que na contemporaneidade reaparece com mais força. De toda a transformação social que a modernidade trouxe à tona, volta-se à maxima basilar de Sócrates, fundante de toda história da filosofia: “sei que nada sei”. De outro modo, foi necessária uma escalada vertiginosa rumo às inconsistências da racionalidade para que o ser encontrasse com essa reflexão novamente.

Referências bibliográficas
FERREIRA, W. "No filme “Zelig” Woody Allen faz uma Fábula sobre a Psicologia de Massas do Século XX". São Paulo: Cinegnose, 2011.(http://cinegnose.blogspot.com/2011/11/woody-allen-conseguiu-transformar-o-seu.html)
HALL, S. Quem precisa de identidade? In: SILVA, T. T. Identidade e Diferença. Petrópolis: Vozes, 2011.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 14a. edição. São Paulo: DP&A, 2013.
Escrito em 05/08/2019 e editado em 20/06/2022



